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Dias corridos, dias marotos, dias de risos e sempre chuvosos. Assim passam os meus dias ultimamente. Entro no trabalho e não paro. Movimento-me todo o tempo, não consigo ficar parado. Se o serviço acaba, eu procuro o que fazer, seja escrever, ler, dançar, brincar, parado é que não fico, não gosto, não me agrada. A possibilidade de estar perdendo algo muito mais atraente me desespera.Saio correndo para a escola e lá chego depois de mais de uma hora de trocas de ônibus, chuva, rir das pessoas e mais detalhes que seriam de extrema indelicadeza citar aqui. E divirto-me demais. Aprendo é claro, esse é meu principal objetivo, mas tudo com grande alegria, com vontade, aquela vontade que nasce da motivação. Conheço algumas pessoas já e todas me parecem muito interessadas no que fazemos. Vejo nos seus olhos, formas diferentes de ver as coisas, de se apresentar. As posturas são muito opostas. Pessoas tímidas, extroverditas, piadistas, tímidos convexos e o mais gostoso, pessoas que tem experiência pra trocar e bom senso no modo de agir. Conquistaram-me de fato.Chego em casa exausto. Tomo um banho, como algo e tenho tempo apenas pra deitar-me, porque quando deito durmo e não penso em mais nada. No dia seguinte é a mesma coisa, mas não me canso. Acordo todos os dias sorrindo, feliz e bem disposto. Descobri que manter-me parado e ocioso como estava não me fazia bem. Se eu quero ser o Marcelo que espero realmente ser, devo mover-me e buscar tudo que há de novo lá fora, porque é lá que talvez more minha felicidade e não aqui dentro de mim, onde tudo ainda é abstrato.
Eu tinha quatro anos e falava a quem quisesse ouvir que gostaria de ser médico, "queria salvar as pessoas" - dizia eu. Mas sabe como é criança, não é mesmo? Troca de vontades como quem troca de roupas. Logo a vontade passou e vieram outras: bombeiro, engenheiro, advogado, astronauta, promoter. Enfim, tudo que era possível.Mas cresci e as vontades passageiras pararam e as vontades reais começaram a aparecer. Decidi-me por ser dançarino. Amo qualquer tipo de dança, e como sempre digo, expresso-me muito melhor com o corpo do que com as palavras. Entretanto, no Brasil ainda é muito complicado sonhar com isso, é muito difícil e fazer os cursos e aulas necessários são demasiado caro. Não desisti, mas deixei pro futuro.Hoje sei o que quero exatamente, quero ser um artista, no significado abrangente da palavra. Quero emocionar as pessoas, quero saber dizer exatamente o que penso. Expressar-me de todas as formas possíveis é o que me chama, mas não só isso. Eu sempre fui sensível as outras pessoas, seus dilemas, seus problemas, tanto que sempre fui classificado como um bom amigo. Sempre fui um bom ouvinte. Pondo em vista isso, a relação humana me fascina e os problemas que ela enfrenta também. Quero ajudar o próximo, voltas e voltas pra dizer isso, mas é exatamente isso. Tenho como meta tornar tudo que está a minha volta melhor, mais claro, mais simples. Não gosto de pessoas comuns, mas o simples me agrada.Talvez essa seja a arte que mais fortemente pulsa em mim, as outras podem ser apenas vertentes, caminhos diferentes de expressar-me. Não sei ainda, mas veremos, tenho uma vida inteira pela frente.
Ontem fui na casa de uma amiga visitá-la, devido a um acidente em que ela se envolvera. Mas ao invés de chorar quando a vi toda machucada, eu e mais os amigos que lá estavam, começamos a rir, e com isso percebi que sempre fui assim e minha vida me coloca em tais situações. Independente da tragédia ou da situação penosa, eu rio, tento me divertir.Quando tinha por volta de 12 anos, meu pai ficou desempregado e nós nos mudanos pra Araras, onde ele conseguira um emprego temporário. Recebia muito menos e ficava muito mais no trabalho, mas ele como pai dedicado aventurou-se a isso. Nós o seguimos. Anteriormente tentamos ficar pra trás em nossa cidade natal - Sorocaba -, enquanto ele trabalhava em Carapicuiba, mas desta vez decidimos ir, não conseguimos ter todo o sucesso pretendido da primeira vez. E não conseguimos da segunda. Tivemos de voltar.Nossa casa havia sido alugada a um casal e pra tê-la de volta alguma medidas legais deveriam ser tomadas. Foi quando nos mudamos pra um bairro de Sorocaba que uma amiga nos indicara. Foi terível, passamos dificuldades financeiras, não tinhamos nem o suficiente pra comer. Mas mesmo dentro dessa 'tragédia', nós nos divertíamos demais, éramos felizes. Crianças felizes que mesmo sem ter os luxos a que foram acostumadas, curtiam a vida como se aquela fosse a melhor de todas, a vida perfeita pra qualquer ser.As coisas mudaram, meu pai empregou-se em Sorocaba novamente e nosso nível subiu relativamente, mas nunca me esqueço disso e ontem avivou-se dentro de mim de forma que marcado estará pro resto da vida. Em situações não muito agradáveis eu sorrio, talvez pra disfarçar a dor e abafar o choro, ou até mesmo pra fazer da vida um pouco melhor - mesmo não sendo.
- Dez dias sem vir aqui, sem me visitar, faz falta. Mas não o fiz porque tenho me divertido muito, tenho me realizado de formas diferentes. Sai com amigos, dancei ao meu modo, sorri com clareza, abracei com ternura, fiz as coisas que gosto de fazer. Fui o Marcelo que gosto de mostrar.
Mas ainda falta algo, não sei se mencionei, mas sou poeta, gosto de rimar as coisas, dar ritmo ao que vejo, entretanto a inspiração que antes transbordava, hoje me falta. Procuro em tudo, nas páginas dos livros, na televisão, no filme que me emociona, na tardes deliciosas que passo em parques, mas nada vem. Creio que de alguma forma estou me transformando. É capaz que daqui alguns meses minha escrita tenha passado por tamanha metamorfose que não me reconhecerei em meus textos.
Talvez não seja a escrita, de certo serei eu, terei mudado. Espero que pra melhor.